Estamos vivendo tempos muito loucos e acho que poucos podem discordar. Um período de tantas divergências políticas e sociais, que ainda é difícil de enxergar como tudo isso será projetado nos futuros livros de história.

Algo é certo: é praticamente impossível não se posicionar, pelo simples motivo que é impossível estar imune a tudo o que está acontecendo. E creio que seja muito provável que muitos se encontrem com um sentimento de melancolia, que nada mais é que um reflexo de quão perdidos todos estamos. À deriva e em um mar razoavelmente agressivo.

Já parou pra pensar por que as pessoas pensam diferente de você? Se ainda não parou, tire dois minutos para tentar entender. Com um pouco de destreza, você chega à conclusão de que é difícil responder isso, afinal, não existe uma verdade absoluta. E é exatamente sobre isso que estou falando. Se me permite usar uma metáfora, eu encontrei uma maneira bem coesa para entender isso e gostaria de dividi-la.

A construção do conceito vem através da vivência

Imagine só que três cegos ao atravessar uma rua e esbarram em um elefante.

O primeiro cego provavelmente vai esbarrar próximo à língua do elefante e, naturalmente, sua percepção sobre o elefante seria de um animal úmido e aveludado. O segundo cego esbarraria no corpo do elefante e, muito provavelmente, sua percepção seria de que um animal seco e áspero, com um couro grosso. O terceiro cego esbarraria no rabo e certamente seu olfato acusaria que não é um animal muito cheiroso.

O fato é que os três estariam certos, todos se referindo ao mesmo animal. O que difere é a experiência e sensibilidade de percebê-lo. Por mais que cada um tenha captado de uma maneira diferente, nenhum deles está errado e dificilmente os três entrariam em um acordo quanto a essa experiência. Cada um construiu um conceito por meio da própria experiência, que de certa forma, é muito limitada.

Se uma quarta pessoa pudesse enxergar o mesmo elefante sem tocá-lo, e compreendesse a complexidade do animal que vê, ela, ainda sim, teria uma experiência diferente e… Igualmente verdadeira.

Cheguei aqui para dizer que: a sua vivência influencia na visão que você tem sobre todas as coisas. O ano que você nasceu, a cidade que você mora, a sua classe social, o idioma que você fala e muitos outros fatores, tudo isso condiciona ou limita de diversas maneiras a sua forma de perceber, experimentar as coisas.

Suas marcas e suas conquistas são as formadoras de suas opiniões e mesmo com muito esforço é difícil entender a visão que os outros têm sobre as coisas, porque são baseados na vivência única de cada sujeito.

A construção do conceito vem através da vivência | Inspiradouro

Contextualizando tudo isso no presente, fica um pouco mais fácil de entender o porquê das pessoas pensarem e agirem como tal.

Veja bem, não estou sugerindo para ser conivente com ideias que ferem tuas percepções de mundo, muito menos ser cúmplice de discursos de ódio por empatia à vivência do outro. Na verdade, é bem o contrário. Até porque, invariavelmente, todos nós podemos acabar apegados a elementos muito rudimentares do cotidiano e atropelar – sem empatia nenhuma – posicionamentos de quem vive situações que nós jamais viveremos.

É a imodéstia humana de não reconhecer seus privilégios. E não estou dizendo que alguém é isento disso.

Seja gentil

Há uma pluralidade infinita de situações em que seremos mais privilegiados que o próximo, que dificilmente enxergaremos e, ainda sim, com todo o esforço, não seria suficiente.

Simplificando essa ideia de reconhecer privilégios, eu diria que uma pessoa branca, por exemplo, jamais deve apontar o que é ou não racismo. Uma pessoa magra jamais deve apontar o que é gordofobia, assim como uma pessoa heterossexual não deve apontar o que é homofobia e um homem definir o que é machista ou misógino.

Toda a problematização dessas questões sociais depende da percepção que cada pessoa tem sobre sua vivência. Isso é respeitar o local de fala de cada um.

O principal motivo para recuarmos – ao invés de questionar – é entender que se uma pessoa diz que aquele posicionamento desrespeita a existência dela, não nos compete julgar essa realidade.

Por fim, deixo uma citação muito usual nas redes sociais (que em uma breve pesquisa descobri ser do autor de romances David Levithan), que diz:

“Todo mundo ao seu redor está enfrentando uma batalha sobre a qual você não sabe nada sobre. Seja gentil.”

Sempre.

Escrito por Nadya Machado
25 anos, feminista, apaixonada por arte, adora gatos (mãe da Amora e da Frida), trabalha como estenotipista e canta jazz por aí.