É possível ser feliz sozinho? | Inspiradouro

Nossa cultura é bastante confusa quando o assunto é estar sozinho.

Aliás, estar sozinho ou solitário são considerados quase sinônimos e tudo o que remete a solidão parece ter um peso enorme. O ritmo acelerado da nossa rotina desaprova a solidão e sua prática é algo incompreendido.

Por que isso acontece em um momento em que autonomia, liberdade e individualismo são mais valorizados do que nunca, quando a imagem publicitária da felicidade é a representação de um grupo de amigos sorridentes em um lindo dia de verão?

Há uma pressão social em ser popular, em ter uma vida social superativa e isso faz com que a gente associe solidão com depressão. Fato é que não nos ensinam a ficar sozinhos, o que faz com que quase ninguém goste de estar sozinho e aproveite os benefícios disso.

Pare para pensar no quanto as pessoas só confirmam sua existência quando estão em público. Somos autocondicionados a querer uma audiência, ainda que não estejamos fazendo nada relevante ou interessante. No entanto, creio que é justamente quando estamos misturados aos demais que nos tornamos invisíveis.

Vamos pegar as redes sociais como um exemplo: Timelines lotadas de eventos a acontecer, feeds compostos por compromissos realizados e agendas cada vez mais cheias e quase sem nenhuma brecha: “Sim, faço parte do mundo!”.

Acabamos infiltrados na manada e compartilhamos opiniões originadas do senso comum, tudo pela ânsia de fazer parte de alguma coisa. Não seria essa sequência infindável de atividades só uma maneira das pessoas fugirem de seus próprios medos, problemas, dilemas ou ansiedades? O que isso faz com a gente?

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Atire a primeira pedra quem nunca tomou decisões erradas como iniciar um relacionamento com alguém verdadeiramente incompatível, simplesmente para evitar a solidão. Ou até mesmo se forçar sair de casa não dando ouvidos àquela voz interior que diz para ficar tranquilo e tudo isso motivado pelo medo “do que os outros dirão”.

Quantas experiências de encontros ruins, namoros ruins, noites e eventos ruins já não tivemos por causa dessa pressão?

A gente trabalha em média 8 horas por dia, passa tempo com amigos, com familiares, colegas de trabalho, pessoas desconhecidas nas ruas…. Quanto desse tempo a gente passa sozinhos, ou melhor, em nossa própria companhia?

Gostar de pessoas e de estar com pessoas não exclui em nada o gostar de ficar afastado também, muito pelo contrário, é tão importante quanto e momentos sozinhos nos ajudam a conhecermos melhor quem somos e a nos relacionarmos com mais facilidade com os outros.

Dissipar o medo da solidão nos ajuda a praticá-la sem ansiedade e nos encoraja a enxergar os benefícios de passarmos algum tempo apenas com nós mesmos, a ter inspiração para encontrar nossas próprias recompensas e, finalmente, levar uma vida mais enriquecedora.

Sempre me senti mais vivo quando estava sozinho, porque esses eram os únicos momentos que não sentia medo de ter minhas ações examinadas e interpretadas. O que acabei descobrindo é que as pessoas precisam que suas ações sejam examinadas e interpretadas, para acreditar que o que fazem tem importância. Sozinhos não fingimos, não disfarçamos, não retrucamos, não provocamos, não julgamos, não condenamos, não sumimos e não voltamos.Trecho do livro O Homem Visível, de Chuck Klosterman

É possível ser feliz sozinho

É real! Estar na própria companhia ou, mais do que isso, ser sua melhor companhia, não significa não ter a companhia de mais nada ou ninguém, significa ter uma conexão profunda com você mesmo.

Desde que eu aprendi a ficar, estar e viver sozinha, em minha própria companhia, eu atraí muitas pessoas certas.

Eu me surpreendi ao reencontrar pessoas que não via há meses, conheci pessoas novas e mesmo coisas novas em mim. Na minha própria companhia conheci muitas pessoas, coisas e lugares…. Antagônico ou paradoxal?

Esse período pode ser muito positivo para nós como aprendizado e até mesmo para o futuro dos nossos próximos relacionamentos. Se você não consegue se sentir bem sozinho, é provável que veja o fato de não se relacionar com alguém como uma tragédia. Mas isso não é verdade!

Se souber aproveitar, as épocas em que estiver sozinho podem ser extremamente proveitosas em termos de crescimento pessoal.

Em vez de procurar alguém desesperadamente, é melhor aprender e ser capaz de estar sozinho primeiro. É fundamental crescer como pessoa, para não procurar um relacionamento qualquer apenas para sair dessa situação.

Devemos realmente nos questionar como vamos poder viver com o outro, se não somos capazes de viver com nós mesmos.

E a solidão pode ser benéfica também para pessoas que estão em relacionamentos.

Somente quando não estamos concentrados nas outras partes da nossa vida é que lembramos da ausência daquele alguém. Não seria muita pretensão colocar a responsabilidade de te fazer feliz em outro ser humano?

Aprendendo a estar sozinho

Comece a aliviar o aperto de sua agenda. Marque um horário consigo mesmo e dê a esse tempo a mesma atenção que daria se o tivesse compartilhado com um amigo ou alguém querido. Na confusão do dia-a-dia pode ser mais difícil se ouvir.

Determine o que é importante para você e lhe faz realmente feliz, ou seja, quais são os seus valores. Ao nos concedermos momentos de isolamento, entramos em real conexão com nossos desejos, processamos as experiências vividas e esculpimos silenciosamente o homem e a mulher que estamos nos tornando.

Não seja tão duro consigo mesmo. Diminua um pouco o nível de exigência e aprenda a se aceitar.

Ative seu espírito aventureiro e mergulhe em tentar coisas novas fora do que você faz normalmente.

É possível ser feliz sozinho? | Inspiradouro

Procure se esforçar para melhorar a cada dia. Não para outra pessoa, e sim para você. Quando estamos sozinhos, somos nós mesmos. Não forjamos sorrisos e nem nos preocupamos com cabelos arrumados ou se temos uma sujeira nos dentes.

Quando estamos somente em nossa companhia é que temos a oportunidade de descobrir onde está a origem da nossa dor, da nossa angústia ou daquilo que vem nos tirando do equilíbrio há algum tempo. E é somente achando a causa que conseguimos buscar a cura, não é mesmo?

Não se prenda só em casa. Você pode estar sozinho em qualquer outro lugar. Seja um parque, um cinema, exposições de arte ou um café em sua própria companhia.

E o mais importante: se agrade! Faça todas as coisas que você gosta. Veja os filmes que não viu, leia os livros que não leu, cozinhe para você.

Ficar sozinho não é estar abandonado, ao contrário: é encontro dos mais sagrados. Invisível para os outros, extremamente visível para si mesmo. A visibilidade é que é rara: olhar profundamente para dentro e enxergar o que ninguém mais consegue ver.
Visíveis para si mesmos, de Martha Medeiros
Escrito por Nadya Machado
25 anos, feminista, apaixonada por arte, adora gatos (mãe da Amora e da Frida), trabalha como estenotipista e canta jazz por aí.